Dois cafés, vindo da Lua
[🗃️ Direto da minha caixa de crônicas]
O dia era sábado. Em Setembro. A primavera (que em São Paulo é carregada de chuva e dias abafados) estava chegando, dando seus primeiros sinais com o agradável clima de 30 graus (contém ironia).
Para não passar calor em casa à tarde, decidimos passar calor em uma cafeteria, e lá fomos nós, saindo do Tucuruvi até Santana com os cadernos na bolsa e os Kindles na mão.
A cafeteria era linda, escondida em algum canto da zona norte de São Paulo. O cardápio tinha opções de café gelado, tudo apontava para uma tarde perfeita. Fizemos nossos pedidos e aguardamos.
Passaram-se 10 minutos, a atendente veio em nossa direção e se seguiu para a mesa ao lado com o pedido do casal que chegou logo antes de nós. Nos entreolhamos pensando: “seremos os próximos”.
Passaram-se 20 minutos, o trio de amigas da mesa à nossa frente recebeu seu pedido, olho para o Raphael com cara de interrogação e digo “acho que a moça esqueceu os nossos cafés”.
Ele chama a atendente e pergunta se o pedido vai chegar - “antes que a primavera recém-chegada acabe” pensei cá comigo - ela verifica seu aparelhinho de anotar os pedidos e disfarça alegando “falha no sistema”, pedindo que a gente repita o pedido “para confirmar” e sai, apressada.
Sorrindo, digo ao Raphael “acho que o ‘sistema’ tá com a cabeça na lua”, ele, sorrindo de volta, diz: “então espero que ela volte da lua com os nossos cafés”.
Olhei pela janela para o azul céu sem nuvens que chamou a minha atenção e fiquei pensando na lua que não aparecera porque estava ofuscada pelo brilho quente do sol, e com a fala do meu marido ainda rodopiando em minha mente, comecei a pensar quanto tempo realmente levaria para ir até a lua e voltar...
A curiosidade falou mais alto e dei um google para descobrir, a atendente levaria mais ou menos 10 dias para buscar nossos cafés na lua, junto com Neil Armstrong e a tripulação do Apollo 11. Ainda divagando, pensei que, por mais exclusiva que fosse a experiência de tomar um café tão exótico, eu não teria essa paciência toda para esperar o Sr. Armstrong trazer a atendente de volta com o meu café.
Ora, já estou impaciente por ter que esperar 30 minutos, quem dirá 14440 minutos (sim, também pesquisei quantos minutos têm em 10 dias).
Então, como se interrompesse meus pensamentos e disposta a não nos deixar esperando nem por um minuto a mais, a atendente chegou com os cafés para alegrar o nosso sábado, em setembro, onde a primavera (que em São Paulo é carregada de chuva e dias abafados) estava chegando.

